O livro censurado em 2024 que apareceu nos grandes vestibulares
“O Avesso da Pele”, que chegou a ser alvo de censura, foi explorado em diferentes provas; saiba mais sobre a obra

Tema de uma questão na segunda fase da Unicamp 2025, presente na lista obrigatória de leituras para o vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) de 2024 e, ao mesmo tempo, alvo de censura. Você já deve ter ouvido falar sobre o livro “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório.
Em 2024, a Coordenadoria Estadual de Educação chegou a anunciar a remoção do livro das escolas do Rio Grande do Sul, após um vídeo com críticas publicado por uma diretora. Mais tarde, voltou atrás, mas o boicote à obra de Jeferson Tenório já havia ganhando proporções maiores – os estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás seguiram pelo mesmo caminho.
A justificativa usada foi a de que o livro continha conteúdo violento e sexual explícito, bem como linguagem inadequada. A obra trata, na verdade, de temas como racismo e violência policial. A retirada do livro das escolas foi vista por muitos como uma tentativa de silenciar debates importantes sobre questões sociais, especialmente sobre a realidade da população negra no Brasil.
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O autor e muitos defensores da obra também reagiram afirmando que a retirar “O Avesso da Pele” do currículo escolar limitava o acesso a uma literatura relevante. A censura gerou uma ampla discussão sobre o papel da educação e da literatura na promoção de um diálogo aberto sobre racismo, violência e as tensões sociais do país.
A história de “O Avesso da Pele”
“O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, é uma obra que mergulha nas complexas questões de identidade, racismo e pertencimento. Publicado em 2020, o livro se destaca por sua narrativa visceral e por trazer à tona debates sobre as estruturas sociais que oprimem e marginalizam negros no Brasil.
Por meio de uma escrita poética e ao mesmo tempo crua, Tenório narra a trajetória de um jovem negro em uma Porto Alegre marcada pela violência policial e por desigualdades raciais, passando uma visão profunda do que significa viver na pele de quem é constantemente visto como “outro”.
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A trama é centrada em uma relação entre pai e filho, Henrique e Pedro – mas não de uma forma convencional. Torna-se difícil, na verdade, determinar qual dos dois é o protagonista da obra, já que o enredo é focado na história de vida de Henrique (a essa altura assassinado em uma abordagem policial desastrosa), mas quem a relata é Pedro.
A partir da experiência que conhece e imagina de seus pais, Pedro tenta entender o lugar que ocupa no mundo, entre as expectativas e os desafios impostos pela sociedade. Essa dinâmica entre gerações é um dos aspectos mais importantes da obra, que explora como os traumas do passado são transmitidos de forma silenciosa e dolorosa.
Além do enredo
O título do livro, “O Avesso da Pele”, na verdade propõe uma reflexão sobre o que verdadeiramente deveria ter valor na sociedade: o que guardamos do lado de dentro. Para pessoas negras, a pele, o maior símbolo da identidade, torna-se também uma prisão, um marcador de diferença que, muitas vezes, impede o sujeito de ser tratado como um igual.
A narrativa de Tenório explora como a construção dessa identidade se dá em meio ao racismo institucionalizado, à violência policial e à exclusão social, mas também como ela é permeada por momentos de afeto, resistência e busca por significado.
A obra não se limita a um retrato de dor; ela também revela a resiliência, a busca por pertencimento e a força de quem luta para se afirmar em um país racista. Ao mesmo tempo, o autor não oferece uma visão idealizada da experiência de pessoas negras, mostrando as ambiguidades, os dilemas e as contradições dessa vivência.
Além disso, a obra também nos convida a refletir sobre o lugar de cada um de nós na sociedade e as escolhas que fazemos diante da desigualdade e da opressão.
Com uma escrita delicada, mas implacável, “O Avesso da Pele” é uma obra essencial para quem deseja compreender as complexas dinâmicas de raça, classe e identidade no Brasil, além de ser uma poderosa ferramenta de resistência literária e social – seja nos vestibulares ou na vida.
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