"Tudo remonta à Doutrina Monroe", afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em coletiva de imprensa no último sábado (3), horas depois da invasão à Venezuela e captura do líder do país, Nicolás Maduro. "Agora eles a chamam de "Documento Donroe" (mistura de Donald Trump com James Monroe). É a doutrina que havíamos esquecido", completou o republicano.Essa não foi a primeira vez que Trump fez referência ao ideal criado por James Monroe em 1823. A nova Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy), divulgada em dezembro do ano passado pelo governo americano, antecipava o que estava por vir ao citar nominalmente a doutrina e confirmar que os Estados Unidos retomaria o "relacionamento" com a América Latina.“Pessoalmente, acredito que a Doutrina Monroe não faz mais sentido, é um significante vazio ao qual muitos significados diferentes foram atribuídos ao longo do tempo", afirmou em entrevista à BBC News Mundo Alex Bryne, escritor e especialista em história dos Estados Unidos.Veremundo Carrillo, especialista em relações pan-americanas do Colégio do México, pontua, no entanto, que “a ideia que deu origem à Doutrina Monroe continua válida: os EUA continuam tendo um papel preponderante no que diz respeito aos seus vizinhos”.Para entender o que mudou de dois séculos para cá, quando surgiu a doutrina da "América para os americanos", é preciso voltar no tempo.+ Quem é Nicolás Maduro e quais são as acusações contra o venezuelanoNasce uma doutrina "anti-imperialista"Era 2 de dezembro de 1823 quando o então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, declarou ao Congresso:Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia […] Os Estados Unidos eram, na época, uma nação recém-independente, e outros países da América Central e do Sul vinham se libertando dos colonizadores europeus. A declaração de Monroe era um recado para o Império Britânico e outros que pairavam sobre o continente americano – em especial para a chamada Santa Aliança, formada por Prússia, a Áustria e Rússia, juntas em defesa do monarquismo e retomada de territórios.+ Qual a diferença entre América Latina e América do SulCom o novo posicionamento, os Estados Unidos comprometiam-se a "zelar" pela independência do continente, sem, no entanto, interferir diretamente em assuntos internos dos países. Mas o papel de guardião não saiu do papel de imediato.Ainda longe de se tornar um poderio econômico e militar, os EUA não conseguiram impedir a invasão de determinados territórios, como as Ilhas Malvinas/Falklands, que acabaram tomadas pelos próprios ingleses.A ideia de "América para os americanos" — que ainda hoje guarda um sentido dúbio – só sairia do papel bem mais tarde, em meados do século 20.O quintal dos Estados UnidosAssim como Donald Trump hoje reivindica uma "doutrina Donroe", que uniria suas ideias às de James Monroe, diferentes presidentes da história americana absorveram as ideias do precursor da doutrina e atribuíram novas nuances a elas.Com isso, desenharam uma política externa em relação aos países do continente, que deveriam estar sob influência dos Estados Unidos, e não mais da Europa. Um dos primeiros movimentos foi a invasão e anexação de cerca de 55% do território mexicano no governo do presidente americano James K. Polk (1845-1849).Mais tarde, Rutherford B. Hayes (1877-1881) declarou abertamente que a América Central e o Caribe eram uma região de influência dos Estados Unidos. Não demorou para a América do Sul entrar na jogada: no final do século 19, os EUA já mediavam conflitos entre Venezuela e o Reino Unido.+ De quem é a Groenlândia? Entenda onde fica a ilha e por que Trump quer tomá-laAbandonando cada vez mais a ideia de não-intervenção proclamada por James Monroe, os Estados Unidos tornaram-se a "polícia" do continente, atuando diretamente nos assuntos internos de outras nações americanas caso julgassem correto – ou conveniente. Ao longo do século 20, afirmam historiadores, foram mais de 30 intervenções.Entre no canal do GUIA no WhatsApp e receba conteúdos de estudo, redação e atualidades no seu celular!