Relâmpago: Assine Digital Completo por 2,99

O estudante de Oceanografia que embarcou em uma expedição para a Antártida

Matheus Batista passou quatro semanas em alto mar, em uma intensa rotina de estudos ao lado de outros pesquisadores

Por Luccas Diaz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 27 jun 2024, 06h26 - Publicado em 26 jun 2024, 19h00
Fotos da viagem de Matheus
Matheus Batista participou de expedição do Programa Antártico Brasileiro (Matheus Batista/Arquivo pessoal)
Continua após publicidade

Matheus Sacramento Batista tem 25 anos, nasceu no Pará, é formado em Oceanografia e fez algo que poucas pessoas podem dizer que já fizeram: conheceu a Antártida. Em fevereiro de 2024, o jovem embarcou em uma expedição da Marinha brasileira e, ao lado de outros pesquisadores, passou quatro semanas estudando a vida no continente mais frio do planeta.

O jovem, que quer seguir carreira acadêmica e acabou de iniciar o doutorado, conversou com o GUIA DO ESTUDANTE para contar toda a sua trajetória: da escolha do curso de Oceanografia até a seleção para embarcar no Almirante Maximiano, o navio polar da Marinha brasileira. Pode ter certeza, a paixão do estudante pela área vai te inspirar!

+ Antártida ou Antártica?

Paixão pela água

Matheus é apaixonado pelo mundo aquático desde cedo. Sabia que, quando chegasse a hora de escolher uma profissão, optaria por alguma que tivesse a ver com os segredos e mistérios dos oceanos. Dito e feito! Ao concluir o Ensino Médio, se matriculou em um cursinho para conquistar uma vaga de Engenharia Ambiental ou Oceanografia na Universidade Federal do Pará.

+ Há espaço para o engenheiro ambiental nas empresas?

De início, a ideia preocupou os pais – que, no fundo, torciam mais para o filho passar na engenharia do que no curso que estuda os oceanos. O ano passou, o Enem chegou, e a temporada do Sisu logo era uma realidade. O estudante selecionou as duas opções que desejava e passou pelo processo (angustiante) que todo vestibulando conhece. No fim daquela semana, recebia a notícia: não foi selecionado em Engenharia Ambiental, mas havia sido aprovado em Oceanografia. Assim, em 2017, aos 18 anos, Matheus iniciava o curso na UFPA.

Vocação acadêmica

Ao iniciar a graduação em Oceanografia, Matheus rapidamente percebeu que o curso demandava muitas atividades de campo, frequentemente levando os alunos a praias e estuários (região onde as águas do rio se encontram com as águas do mar, fazendo uma mistura entre água doce e salgada) para observar a vida aquática. Durante essas atividades, seu interesse por entender profundamente esses ambientes e pesquisar suas características cresceu, incentivando-o a seguir carreira acadêmica.

Continua após a publicidade

+ 5 profissões para quem quer morar na praia

Não demorou para se envolver com o seu primeiro projeto de iniciação científica, sobre microplásticos em praias do norte do Brasil. O segundo foi sobre o fluxo de dióxido de carbono na interface água-atmosfera em estuários. Os projetos consolidaram de vez a sua paixão pela pesquisa e pelo ensino – apesar das constantes sugestões dos pais para que ele seguisse um caminho mais “seguro”, dos concursos públicos. A vida acadêmica, embora pouco lucrativa, era o que fazia seus olhos brilharem.

Além disso, Matheus explica que o mercado de trabalho para oceanógrafos é limitado, com oportunidades como analista ambiental em empresas de exploração de recursos naturais – como a Vale a Petrobras –, secretarias do meio ambiente ou na Marinha. Mesmo com a escassez de investimentos na área acadêmica, o jovem conseguiu realizar suas iniciações científicas com bolsas do CNPq e, após se formar, emendou logo em um Mestrado.

+ Carreira acadêmica: saiba como é trabalhar com pesquisa

No Mestrado, o início do sonho

Fotos da viagem de Matheus
(Matheus Batista/Arquivo pessoal)
Continua após a publicidade

Aos 22 anos, o já oceanógrafo mudou radicalmente o rumo de sua vida e dos seus estudos: foi do extremo norte ao extremo sul do país. Matheus, que ainda morava com os pais no Pará, se mudou para o Rio Grande do Sul para estudar na FURG, a Universidade Federal do Rio Grande. A universidade, que se beneficia da sua proximidade com três corpos d’água importantes: a Lagoa Mirim, a Lagoa dos Patos (considerada a maior laguna do Brasil) e o próprio Oceano Atlântico, é referência em Oceanografia no Brasil

No Mestrado, se tornou membro do Grupo de Oceanografia de Altas Latitudes. O GOAL, como também é conhecido, reúne diversos pesquisadores de áreas diferentes que estudam os aspectos físicos, químicos e biológicos da vida marinha em regiões de altas latitudes. Entre os lugares estudados pelo grupo, está a Antártida.

+ O que explica as enchentes e secas recordes no Brasil

Chegando no fim do Mestrado, em 2023, foi convocado para participar do Cruzeiro do Antártico, uma expedição com outros 20 e tantos profissionais que visa coletar, simultaneamente, material para várias pesquisas diferentes. O estudante não pensou duas vezes: aceitou o convite. Em fevereiro de 2024, pegou um avião em direção a Punta Arenas, cidade no sul do Chile considerada uma das regiões mais próximas da extremidade do continente, e lá, embarcou no Almirante Maximiano, o navio polar da Marinha brasileira.

A viagem para a Antártida

Fotos da viagem de Matheus Batista
(Matheus Batista/Arquivo pessoal)
Continua após a publicidade

Foram quatro semanas a bordo, navegando pelas águas da Península Antártida. Houve apenas duas paradas em terra firme, as duas na Estação Antártica Comandante Ferraz, a base científica do Brasil no continente. De resto, foram 28 dias de intensas pesquisas em alto mar. Matheus conta que os pesquisadores eram divididos em turnos, um matutino e um noturno.

“Geralmente, ficavam 12 pessoas num turno e 12 no outro, então havia pesquisadores trabalhando 24 horas por dia no navio, sem parar”, explica. “Tinha quem fazia coletas da água, quem fazia avistamento de baleia e outros mamíferos… Então, eram vários pesquisadores especializados em aspectos diferentes da vida marinha, seja da parte química, física e até da microbiologia, que investiga vírus e bactérias“.

+ Microbiologia: conheça área de grande destaque na pandemia

Portanto, não eram apenas oceanógrafos como Matheus que estavam a bordo, mas também profissionais da Biologia, da Engenharia Ambiental e da Química. Do laboratório do jovem, foram doze pessoas. Além dos pesquisadores, os únicos a bordo eram os tripulantes da Marinha, responsáveis por toda a parte técnica da viagem. Não havia turistas.

Ah! O jovem não precisou arcar com nenhum custo, viu? Toda a viagem foi financiada pelo Programa Antártico Brasileiro, com o apoio da Marinha do Brasil. Mas não teve nada de mordomias: ele dividia um quarto com 3 pessoas, e um banheiro com seis.

Continua após a publicidade

+ 7 documentários sobre o oceano

Rotina intensa

Fotos da viagem de Matheus
(Matheus Batista/Arquivo pessoal)

A rotina, ele admite, era intensa. Os turnos de trabalho duravam 12 horas cada, dividindo exatamente na metade os dias dos pesquisadores. Os do turno matutino começavam às 7h30 da manhã e só paravam às 19h30; neste mesmo horário, iniciavam os do noturno, incluindo Matheus, que iam até às 7h30 do dia seguinte.

“Depois do expediente, quando era de manhã, eu ia para a cama e dormia, geralmente até umas 16h, 17h da tarde, depois acordava e já me preparava para prosseguir para o próximo turno”, relembra. “Trabalhando doze horas, eu tinha as outras doze para dormir e também aproveitar o período livre, então eu jogava, tirava foto, via as paisagens. Às vezes, até conseguia avistar baleias.”

O trabalho do oceanógrafo não era simples. Começava coletando cerca de 9 litros de água do oceano. Em seguida, partia para o laboratório do navio, onde levava a amostragem para cada estação para realizar a filtragem da água. O resultado, então, era retido em um filtro e armazenado em um congelador. As amostras seriam analisadas na universidade, na volta ao Brasil.

Continua após a publicidade

+ O que diz o novo relatório da Unesco sobre o aquecimento dos oceanos

“Na parte que eu fiquei, a gente queria investigar o carbono orgânico que existe dentro da água, isto é, o carbônico orgânico que está atrelado, por exemplo, aos organismos”, explica. “Após as análises, vai dar para quantificar quantos micro-organismos existem naquela região, qual é a produtividade primária dessas águas naquele período. O trabalho não acabava ali na Antártida, na verdade, só começava.”

No início de março, Matheus voltava à terra firme e retornava à cidade de Rio Grande. Com o fim do Mestrado, daria agora sequência a sua próxima etapa na carreira na academia. Mas com uma bagagem que poucos conseguem ostentar. “Foi incrível, algo surreal, cada paisagem, cada iceberg, cada borrifo de baleia, cada pinguim que a gente via, era uma emoção muito grande. Foi muito incrível mesmo!”, conclui.

Entre no canal do GUIA no WhatsApp e receba conteúdos de estudo, redação e atualidades no seu celular!

Compartilhe essa matéria via:

 Prepare-se para o Enem sem sair de casa. Assine o Curso GUIA DO ESTUDANTE ENEM e tenha acesso a todas as provas do Enem para fazer online e mais de 180 videoaulas com professores do Poliedro, recordista de aprovação nas universidades mais concorridas do país.

Publicidade

O estudante de Oceanografia que embarcou em uma expedição para a Antártida
Universidades
O estudante de Oceanografia que embarcou em uma expedição para a Antártida
Matheus Batista passou quatro semanas em alto mar, em uma intensa rotina de estudos ao lado de outros pesquisadores

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se você já é assinante faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

MELHOR
OFERTA

Plano Anual
Plano Anual

Acesso ilimitado a todo conteúdo exclusivo do site

Apenas R$ 2,99/mês*

Plano Mensal
Plano Mensal

R$ 19,90/mês

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.